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Nótulas de um Património Imaterial
Janeiro 2010 / Enero 2010

No passado dia 14 de Novembro de 2009, a convite de amigos de Maçores, dirigi-me a esta freguesia do Concelho de Torre de Moncorvo, a pretexto da festa popular em honra de São Martinho.

Maçores é freguesia do concelho de Torre de Moncorvo, situando-se a uma dezena de km da sede do concelho, ao fundo do denominado Monte Ladeiro. Tem como orago São Martinho de Tours, cujo dia se celebra a 11 de Novembro. Martinho de Tours era filho de um Tribuno e soldado do exército romano. Nasceu e cresceu na cidade de Sabaria, Panónia (actual Hungria), em 316, a sua educação fez-se sob os costumes dos seus antepassados assim como a sua religião, no domínio dos deuses mitológicos venerados no Império Romano, com 10 anos de idade, entrou para o grupo dos catecúmenos (aqueles que se preparam para receber o baptismo). Com 15 anos de idade, e contra a própria vontade, ingressa no exército romano tendo-se dirigido para a Gália (região da actual França). Abandona o exército aos 18 anos na sequência dos desígnios do cristianismo, que não se compatibilizava com as suas funções militares. Foi baptizado por Hilário, bispo da cidade de Poitiers. Pelo facto de ser dia de semana, este ano, as festividades realizaram-se no fim-de-semana seguinte, decorrendo entre Sábado e Domingo, respectivamente 14 e 15 de Novembro.

Desloquei-me desde Felgar, subindo e descendo a Serra do Reboredo em direcção a Felgueiras, para percorrer o Monte Ladeiro na direcção de Maçores. Ao longe comecei a vislumbrar o fumo emergente na ponta do aglomerado de casas. Por momentos deixei-me ficar em recordações minhas, revivendo festas de outras paragens que há muito se desvaneceram. A festa que me esperava era o magusto de Maçores, incluído nas festividades de São Martinho. Adivinhava a movimentação da algazarra pagã, em brincadeiras telúricas, entre lume, castanhas, vinho e fumo.

Cada local tem a sua própria expressão etnográfica, miscigenada com inúmeras reminiscências religiosas e pagãs. De tal forma que em determinada altura não é mais possível discernir quais as influências que lhes deram origem. Os seus aspectos específicos reflectem-se nas tradições locais e principalmente nas romarias populares.

Este fenómeno cultural designa-se, hoje em dia, por Património Imaterial. Infelizmente não é reconhecido pela grande maioria das pessoas que nos rodeiam e escapa-se ao nosso quotidiano de ideia de Património. Esta ideia de património juntamente com a ideia de bem cultural deve sugerir-nos que estamos em presença de algo de grande valor, não valor comercial ou monetário mas sim valor cultural, algo que devemos ter a preocupação de conservar. O Património Imaterial faz parte da herança de um povo, de uma cultura, de uma região. Perder este Património é perder o conhecimento do Homem.

Continuei o meu percurso pelo Monte Ladeiro, descendo até Maçores, numa altura em que o cheiro a palha queimada e castanha assada já me deixava água na boca. O dia estava sereno, sujeito a aguaceiros e algum vento que traziam os aromas do Outono e algum frio a fazer a diferença do famoso Verão de São Martinho.

A celebração do magusto está associada a lendas, uma das quais qual refere que um soldado romano, mais tarde tendo ficado conhecido por Martinho de Tours, ao passar a cavalo por um mendigo que se encontrava quase despido, cortou a sua capa ao meio com a espada e dividiu-a com o mendigo pois não tinha mais nada para lhe oferecer. O dia encontrava-se chuvoso e diz-se que, no preciso momento em que o soldado ofereceu a capa ao mendigo, parou de chover, assim resultou a expressão: "Verão de São Martinho".

Chegado a Maçores, uma estranha calma fazia-se sentir na rua principal e não se vislumbrava viva alma no caminho. Assim que estacionei o carro e saí para a estrada para percorrer os últimos metros a pé até ao local que adivinhava ser o da concentração das gentes, senti no ar a azafama da festa em plena agitação. A partir deste momento o volume de sons e cheiros foi aumentando na medida dos meus passos e da viragem de cada esquina até conseguir ver a agitação das pessoas em redor da palha que ardia pelo chão, encerrava-se o ciclo das castanhas. O ambiente era já de plena confusão e alegria. Pela mão das pessoas podia verificar a cumplicidade que tinham com a festa, numa mistura de negro que se projectava também para as faces. O negro enfarruscava as expressões da maior parte dos presentes e quando por fim me consegui juntar ao grupo que rodopiava no frenesim do magusto, por momentos, pensei que iria passar despercebido. Obviamente que tal não aconteceu. Quando dei por mim já estava no meio da frenética actividade em volta do lume, do fumo, do cheiro das castanhas assadas e da jeropiga. Encontrados os amigos que me propiciaram o convite para esta festa, imediatamente me integraram no convívio. Assim rapidamente me deram para a mão um copo de jeropiga bem como também me enfarruscaram a cara de carvão e me ofereceram castanhas descascadas, indicando-me o centro do largo e a fogueira de palha onde estas assavam. O barulho da festa diluía-se no sabor da jeropiga e das castanhas e foi por esta altura que reparei na caldeira de vinho. Circulava pela mão de dois homens que a suspendiam em volta da agitação, parando aqui e acolá para uma prova ritual em que cada um se deveria debruçar para beber o que pretendia. Novos e velhos, rapazes e raparigas, todos se aperaltavam para poder aproveitar a oferta e em redor da caldeira desenrolava-se agora uma actividade que propiciava ao brinde. Amigos juntavam-se para beber e brindar em conjunto debruçando-se sobre a caldeira, os mais velhos também não deixavam passar a oportunidade, com mais algum peso nos ombros e dificuldade do que a rapaziada nova não se deixavam intimidar. Vi-me então também junto da caldeira e feito o convite pelos meus amigos debrucei-me para brindar e beber o vinho da caldeira.

Pelo que me foi dito, a caldeira incorpora vinho de toda a aldeia, passando por todas as portas na expectativa de uma oferta generosa para contribuir para a plena capacidade do recipiente. Assim que a ronda se efectua, a caldeira encontra-se bem abastecida circulando pelas ruas a contribuir para a alegria da festa do São Martinho.

Entre o ritual da caldeira e das castanhas surgiu no ar o impressionante ruído da gaita-de-foles e dos tambores. Este novo aspecto veio colorir definitivamente o quadro humano que se desenhava na festa de São Martinho, confirmando completamente as descrições que me foram feitas do magusto de Maçores. O som do gaiteiro aconchegou a alma das gentes reafirmando a tradição e a memória. Agora o magusto estava no seu auge e as pessoas no seu elemento. Trocavam-se cumprimentos de velhos amigos e memórias de tempos passados, a boa disposição imperava no largo da fogueira e a festa continuou até se instalar o cansaço e as pessoas recolherem para descansar e continuar a festa a São Martinho pela noite dentro com o respectiva animação musical.

Como já anteriormente foi referido, este é um exemplo patrimonial que urge preservar e conservar. Mantém-se em Maçores a tradição e a memória, passada de geração em geração, no gosto popular dos habitantes. Comparativamente com Património Material o Património Imaterial é igualmente importante. O Concelho de Torre de Moncorvo detém tradições populares e romarias importantes, das quais a festa de São Martinho e Magusto de Maçores são expressão plena deste Património.

 

João Francisco Santos

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