Lisboa Madrid "Ibéria distante" - Futebol com canela
Janeiro 2010 / Enero 2010 Tenho esta teoria de que as saudades começam pelo estômago. Logo nas primeiras semanas fora de casa, e apesar do meu gosto pela experimentação de sabores novos em geral e dos chineses em particular, percebi que a espécie de friozinho no estômago que às vezes aparece não é se não a saudade com fome. O problema é o facto de ser praticamente impossível reproduzir os paladares caseiros noutra ponta do mundo. A comida dos restaurantes chineses em Portugal é, quando muito, uma aspirante a gastronomia semi-luso-chinesa… A portuguesa em Macau também se fica pela fraca imitação, apesar dos bons esforços. Os ingredientes são outros, mesmo que tenham o mesmo nome. Sendo assim, será que a comida pode ser símbolo da identidade nacional no resto do mundo? O que identifica Portugal cá fora? Que nomes, imagens, sabores, sons ou (para ser mais realista) modalidades desportivas são capazes de produzir alguma reacção num interlocutor do outro lado do mundo? A minha experiência não me conduziu a nenhuma conclusão surpreendente. O futebol costuma destacar-se, com muitos pontos à frente de qualquer outro signo. O país de origem é a primeira informação obrigatória nas conversas com gente de Pequim. Os senhores taxistas só precisam de saber para onde vamos e não têm necessariamente curiosidade em saber de onde vimos, mas fazer perguntas faz parte da boa educação chinesa e, por isso, já me habituei a ter de fornecer pistas adicionais sobre que país é Portugal e onde fica, já que é muito raro conseguir assentimento ao pronunciar o nome 葡萄牙, Putaoya, que traduzido à letra parece querer dizer “país das uvas” mas na realidade não quer dizer nada; é apenas uma aproximação à pronúncia em português. Começo por dizer que somos vizinhos de Espanha e, a seguir, uso – quantas vezes a contragosto dado o limitado interesse que o futebol me suscita – o nome do Cristiano Ronaldo, só para não frustrar a tentativa de comunicação entre o ponto de partida e o de chegada no trânsito imenso e invariavelmente entupido desta cidade gigante. A coisa complica-se quando os senhores taxistas não gostam de futebol. É aborrecido não ter vocabulário suficiente para preencher o vazio silencioso do trânsito parado. Uma vez, em Singapura, um senhor falou-me de Carlos Lopes e Fernando Mamede e eu fiquei boquiaberta e contente por a modalidade ser outra. Mas os pequinenses não conhecem atletas portugueses reformados. O outro símbolo nacional, que facilmente arrepia e emociona forasteiros incautos e incapazes de resistir aos seus tristes encantos, não parece ter alcançado as sensibilidades auditivas dos chineses. Há excepções. Como me espantou conhecer esta semana, ao sair do cinema, uma chinesa apaixonada pelo fado! A Yue reagiu com incontida alegria quando lhe dei a primeira informação obrigatória – “Portugal?!” – e explicou-me, então, que uma amiga lhe emprestou em tempos um CD de fado e que este feliz achado despertou nela uma curiosidade crescente sobre o nosso país. Também gosta de futebol, mas prefere os veteranos Figo e Rui Costa, ainda não apagados de umas poucas memórias chinesas. E até sabe umas palavras em português. Combinámos um intercâmbio linguístico e cultural e, assim, em breve descobrirei o que leva uma chinesa a querer saber mais de nós e de onde vimos, muito além do espírito perguntador chinês. Futebol e fado são, portanto, indicadores portugueses no estrangeiro. Mas voltando ao estômago, e às saudades que aí se instalam, posso dizer que a minha maior surpresa entre os emblemas nacionais na Ásia é… o pastel de nata. Obviamente não falo do Pastel de Belém conforme a receita original de segredo bem guardado. Mas é o pastel de nata. Reconheço-o ao longe e sou remetida para casa ao ver a simples e inconfundível imagem das mil folhas; consigo, sem esforço mas com alguma imaginação, sentir o cheirinho a canela subir-me ao nariz e a água crescer-me na boca… embora quase nunca me arrisque a efectivamente comprar e saborear algum, para não destruir a doce sensação que me provoca a mera consciência da sua existência aqui, tão longe de casa, tão doce memória. O pastel de nata é famoso na China. Chama-se 葡式蛋挞 (Pu shi dan ta), que significa mais ou menos “pastel de nata de estilo português”, ou apenas dan ta, “pastel de nata”. Pelo que vi até agora, o preço varia entre 1 e 4 yuan, ou seja, entre 10 e 40 cêntimos mais coisa menos coisa. Tem uma grande procura e é vendido com apresentação requintada em pastelarias finas; é incluído no menu permanente do Kentucky Fried Chicken (KFC) desde há vários anos; e serve de artigo publicitário para atrair clientes a novas pastelarias. Infelizmente, é servido sem canela, elemento que poderia convencer as papilas gustativas de que o pastel se assemelha ao nosso. Falta-lhe a canela, mas existe em variante simples, com feijão, com azeitona, com compota e, com certeza, em muitas outras que ainda não descobri. Há que adaptar o produto à realidade local e os chineses gostam de recheios.
Aqui, muitas pessoas pensam que o pastel de nata teve origem em Macau onde, afinal, consta ter sido um australiano e não um português a introduzir o produto agora tão tradicional. Em Macau há pastéis de nata em todas as esquinas, em todos os cantos. Para quem conhece o verdadeiro pastel, o melhor é ir a algum dos vários cafés portugueses (aconselho o Café Ou Mun) para conseguir um sabor mais aproximado. Depois de Macau, a tarte de ovos portuguesa contagiou Hong Kong a partir de onde, por sua vez, chegou a Taiwan e, depois, ao continente chinês. Em Hong Kong existem pastelarias especializadas no pastel de nata, onde as filas de clientes são longas e famosas. Na cadeia de restaurantes KFC, o número de pastéis vendidos por cliente foi limitado, para evitar que estes sejam revendidos ao dobro do preço nas bancas de rua. O pastel de nata é considerado pelo jornal The Guardian a 15ª iguaria mais saborosa do mundo. É um sucesso indiscutível e, sem dúvida, o símbolo de Portugal no mundo que prefiro, de preferência polvilhado com muita canela. Da próxima vez que andar de táxi, vou dizer que sou do país dos dan ta… talvez assim não seja obrigada a falar de futebol. 葡萄牙 葡式蛋
Isabel Matos (Texto e Foto) |
pub
A carregar...
ÚLTIMAS NOTÍCIAS
|
||||||||||||||||||||||||